domingo, 16 de janeiro de 2011

As cidades de Vieira da Silva e Arpad Szenes

"Se Vieira for a caligrafia, Arpad é a linha do caderno.
Se Vieira for o labirinto, Arpad é o fio de Ariadne.
As cidades de Vieira são nervosas e rápidas. As de Arpad tornam-se calmas e lentas. Nas cidades de Vieira há a fragilidade que lhes dá leveza. Nas cidades de Arpad há a certeza que lhes dá dúvida. As cidades de Vieira fogem e as de Arpad regressam. As cidades dela são o futuro do passado e as dele são o passado do futuro. As cidades de Vieira escrevem-se no espaço, porque o futuro, como sabem os arquitectos e os videntes, constrói-se em extensão. As cidades de Arpad inscrevem-se no tempo, porque o passado, como sabem os arqueólogos e os psicanalistas, desvenda-se em profundidade. É por isso que Vieira é a arquitecta-vidente das suas cidades e Arpad o arqueólogo-psicanalista das cidades dele."


Maria Helena Vieira da Silva ( 1908-1992 ), pintora de origem portuguesa, nasceu em Lisboa no seio de uma família de espírito aberto, ideais republicanos e muito ligada à cultura, o que cedo estimulou o seu interesse pela pintura, pela leitura e pela música. Depois de ter estudado desenho, pintura e escultura em Lisboa, vai para Paris em 1923, insatisfeita com o ensino ministrado na Escola de Belas Artes de Lisboa, num período politicamente instável e culturalmente pouco estimulante.

Desenvolveu um trabalho muito eclético. O seu gosto inicial pela música influenciou a sua pintura. Algumas obras lembram as partituras de Bach!
Também o seu trabalho relaciona-se com a filosofia. Em alguns quadros, como por exemplo "Ville en extension, 1970", é notória uma sensação de labirinto, sendo evidente a metáfora do Ser Humano, do sentido da vida de um ponto de vista filosófico.
Vieira da Silva não representa a realidade tal como a vimos. Ela não pretende representar o mundo das aparências, mas sim das essências.
Em 1929 conheceu Arpad Szenes, tendo-se casado em 1930.

A pintora utilizava a técnica da perspectiva e quando pintava sobre telas recorria ao óleo, nomeadamente ao processo work in progress.
Na sua obra predominam duas grandes temáticas: a representação não mimética da realidade e a utilização do quadrado.

Pessoalmente, e na exposição "As cidades de Vieira da Silva e Arpad Szenes" patente no Museu da Electricidade até dia 23 de Janeiro, adorei o quadro "Cidade Azul".
Neste, a tridimensionalidade não se verifica ao nível da cor e das texturas, mas sim através de letras e números dactilografados. Genial ...

Em 1961, após ter ganho o prestigiante prémio da Bienal de São Paulo, seguiram-se grandes encomendas e exposições.
Os anos 70 e 80 foram os da sua consagração!

Gosto imenso da pintora Maria Helena Vieira da Silva. Artista do mundo, não pertencia a uma cidade, mas às cidades !

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