terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

"A Cidade"

Luis Miguel Cintra pegou em vários textos de Aristófanes e construiu "A Cidade", um espectáculo que através de um palco simples, despido de mais adereços e cenários que não a alusão a uma traça arquitectónica, fez-me regressar à Grécia Antiga.

O encontro revelou-se inesperado. Juntar em palco actores mais ligados ao humor, como aqueles que deram corpo e manifesto aos televisivos "Os Contemporâneos", e actores conotados com um teatro dito ou tido como "sério", como o são aqueles que "residem" no Teatro da Cornucópia, não é propriamente aquilo que o público esperaria ver.

E foi assim que, num misto de erudição e humor, crítica e comédia, deparei-me com as mais diversas personagens: o velho que se queixava de saudades do campo, o camponês que vendeu as próprias filhas, as mulheres que se fizeram passar por homens para conseguirem conquistar o governo da cidade, o Raciocínio Justo a discutir com o Raciocínio Injusto, Sócrates, Eurípedes ou ainda Pluto, o deus do dinheiro, que ali não foi mais do que um cego com óculos escuros.

O mais curioso é que apesar deste desfile de personagens essencialmente ridículas, foi possível perceber que há 2500 anos as perplexidades, dúvidas e vícios que corroíam os cidadãos são exactamente os mesmos de hoje, em pleno Séc. XXI: o desinteresse das pessoas pela vida pública, a ganância e a corrupção como modus vivendis da classe política, o desejo cego pelo poder e o apelo do dinheiro, a educação dos jovens, o confronto nas relações homem-mulher, sobretudo no que toca às suas responsabilidades sociais.

Enfim, ao longo de quase quatro horas diverti-me imenso com situações hilariantes e disparatadas, convívio entre deuses gregos e jovens irreverentes de mp3 nos ouvidos ou ainda personagens como Eurípedes e salsicheiros que falavam em calão.

Também simplesmente memorável, diga-se de passagem, uma cena musical onde as mulheres cantaram à janela como nos filmes "Pátio das Cantigas" e "O Costa do Castelo", numa clara piscadela de olho a Lisboa e às suas marchas e fados.


Enfim, uma verdadeira festa no plano das interpretações, com destaque, parece-me mais do que justo, para um notável Nuno Lopes ... foi só rir, só rir ! ;)

2 comentários:

Lou Salomé disse...

Tinha-me despertado atenção quando recebi por email a apresentação de "A Cidade", mas depois de ler a descrição e porque rir é sempre bom, fiquei com uma certa inveja de não morar em Lisboa! :-) Em breve tenho de visitar a cidade, de Lisboa... porque a peça, já não posso! Beijinhos

Maria Ngan disse...

A tua visita será sempre bem vinda ! ;)

Bjinhos